Porque uma flor não passa de uma flor...

Uma ingénua tulipa branca acena-me ao longe, misturada entre flores de todas as cores em vasos na berma da estrada junto à florista. E é assim que me sinto. Uma simples tulipa branca mergulhada numa imensidão de cores vivas e alegres que chamam a atenção de quem passa, enquanto eu fico com o caule mergulhado na água a olhar o mundo que rodopia à minha volta com um olhar esperançoso para que alguém pegue em mim e me leve a ver coisas novas... Não que a minha imaginação não flua pela minha seiva e que as sensações que apreendo por ver o meu próprio mundo ser parte de outros mundos não sejam suficientes, mas quero mais, muito mais... Mas porquê,se uma flor não passa de uma flor? Cada pétala tem um sentido distinto, cada grão de pólen é um novo sentido que abraça o conhecimento. Nós flores somos assim. E ouço o vento todos os dias a murmurar-me coisas banais e a chuva miudinha que cai ao nascer do sol e que poucos sentem... Assisto ao sol a abrir as portadas das janelas e sinto o cheiro do pão quente e esqueço-me que sou uma simples flor, como tantas outras...Não sei de onde apareceste de repente, mas conheço-te desde sempre assim que te ajoelhas e te debruças sobre mim.Contemplo em extâse os teus olhos curiosos que me sorriem e as minhas pétalas brancas agitam-se e em silêncio te peço para me escolheres de entre tantas outras tulipas brancas que aqui estão comigo mergulhadas neste vaso feio. Fecho as pétalas com força e sinto umas mãos grandes abraçarem-me e tirarem-me deste vaso; saio da florista junto a ti...
Neste quarto branco vejo-te sentado nessa cama com as cara entre as mãos e só eu sei que choras. Só eu, do cimo deste vaso translúcido em que me puseste, sei o quanto te dói essa tristeza. Sonho em proteger-te com as minhas longas pétalas brancas e ver-te melhor. Conhecer quem me contempla com tanta ternura, quem passeia os dedos por mim com tanta volúpia...Mas é em vão. Continuas aí sentado nessa cama e não sabes sequer em tudo isto que penso.

Pela janela vejo as grandes árvores desta avenida sem nome, deste sítio que não tem tempo para existir. E a noite vai caindo lentamente... E tu, sentado no parapeito da janela, encantas a escuridão com as palavras que vais rasgando e que se soltam no vento. E eu, mergulhada neste vaso translúcido, espreito-te, sem dares conta, ao som dos batimentos do relógio da entrada.
Pesam-te os olhos cansados de tanto sonhar pela noite fora, pousas o caderno, o lápis e sentas-te ao meu lado olhando-me outra e outra vez... - se as flores pudessem corar na sua timidez, decerto este seria um momento assim...- e a tua voz fica presa neste silêncio lindo que se tomou conta de ti. Mas eu sei ouvir o teu coração e saber porque estás tão triste e porque choras por dentro ao olhar-me assim.É este amor imenso que guardas dentro de ti, que tentas metamorfosear em versos soltos pela noite que te fala perto do teu ser e justifica toda essa loucura avassaladora que te perpassa numa aparente calma de quem saboreia a vida com um gosto especial.

Adormeces abraçado a mim nesta cama de lençois de linho branco e eu vou abrindo as minhas pétalas para me despedir do mundo que vou deixar. Aos primeiros raios de sol a entrarem deleitosamente pela janela aberta de par em par guardo a tua figura adormecida de lágrimas presa a mim. Despertas para um novo dia, despertas para um novo amor... E eu adormeço para sempre pousada nos lençois de linho até pegares em mim com a mesma delicadeza da primeira vez que me viste.E tudo acaba. A minha vida acabou aqui, porque uma flor não passa de uma flor.





(La capacidad de amar la tienen muy pocas personas.Hay algunas que focalizan todo su amor en muy muy pocos y mandan a pudrirse al resto. Otras se aman a ellos mismos y mandan a pudrir al resto. Otros no aman a nadie nadie y se pudren cada vez más que cada vez más odian su propia podredumbre.Las personas que aman a todos, al mundo, son las personas que viven en el lado de los buenos, desde la perspectiva de mi casa, la tierra de nadie. Por lo generAl es así. Y por lo general también en la tierra de nadie vive la gente podrida de uno y de todos.Una vez vino un alguien desde el lado del bien y con toda la fuerza alegre que tenia adentro me saludó, me pregunto como estaba, si todo estaba bien, me repitió devuelta la pregunta, porque esta gente cuando pregunta por el estado de uno lo pregunta en serio. En fin, la persona en tierra de nadie queda desconcertado frente a este tipo de preguntas de verdad, asique responde sin saber exactamente lo que esta diciendo y el otro, el bueno, se va regando la tierra seca con risas. Ahora creció una flor. Ojala algún día yo también pueda hacer crecer flores el las tierras de los otros... de los buenos y de los malos.... y en mi tierra también. (este texto em espanhol encontrei-o em dyeme.blogspot.com/)


6 comentários:

Del Giorgio disse...

Tal como não consigo ter um animal preso em casa porque a liberdade é um direito mesmo de qualquer animal, também não consigo arrancar uma flor dum vaso, dum canteiro, dum jardim porque é lá o seu lugar.
As flores não foram feitas para andar mas para serem admiradas no seu próprio local, no seu próprio habitat. É essa a sua liberdade.
Não queiras ser uma flor...
Desprende-te. Linda já és.
Não é a ganhar raízes que serás mais bem apreciada e acarinhada.
Adoro-te pelo o que és, como és e não preciso de te comparar à mais bela tulipa branca da Amazónia (mesmo em extinção como alguém como tu...) e sê sempre livre mesmo que te "prendas" a um amor porque... "porque uma flor não passa de uma flor."

Ana, dona do café disse...

nunca pensei que, ao acabar de ler o teu comentário, tivesse lágrimas a caírem-me pela cara abaixo.
um beijo... estou absolutamente sem palavras.

Del Giorgio disse...

Para quem ficou completamente sem palavras, ainda me conseguiste abalar 1 pouco... Fazer-te chorar não!! :(
Para isso, não uso as minhas palavras e deixo-te com estas (que em nada deixam de ser "minhas"...)

"Queres saber quem eu sou? Eu sou o que te olha e espia para te recolher e depois guardar num lugar que é só meu. Para isso serve o papel. O resto não precisas de saber. Nem convém. Só te ia distrair, podes crer. Eu sou o que mergulha as mãos na tua vida para sentir a minha a voltar."

in "muito, meu amor" de Pedro Paixão.

Del Giorgio disse...

E não resisti ainda a deixar este excerto do mesmo livro que não fui eu quem o escreveu mas pensei-o!
Chega a incomodar ler algo assim, que diz tanto de mim. (até rimou...)
Que diz exactamente o que eu penso e sinto nestes momentos (sim, plural porque já começa a ser mais do que "passageiro").
Palavras tão simples mas tão certeiras, tão exactas, tão... lê:

"Olhar para a frente sem saber o que vai ser de nós. Olhar para trás sem nada poder reviver, corrigir, emendar sequer. Não conseguir fixar o presente, bom ou mau, tanto faz, o presente que não será mais. Sentir-se transportado para a frente e depois para trás, ficar tonto, prestes a cair, sem ter mão no que pensar. Levantar, andar, voltar e depois parar num mesmo sítio, sempre diferente. Desistir, recomeçar, deixar cair, agarrar por momentos e depois abandonar. Sentir-se feliz, absolutamente feliz, e logo depois desesperar, sem esperança alguma de voltar a acreditar, e depois voltar a acreditar, e sentir a felicidade, aos poucos, a voltar. Tudo isto à volta de um amor, por causa de um amor, tudo isto e muito mais, meu amor, que te tenho de esconder.
Senão dizia-te."

E assim quase que te digo tudo, sem te ter dito nada...
Para o PP escrever isto, já deixei de pensar que ele me conhece. Começo é a pensar que te conhece a ti...
1001 beijos! (1000 é uma conta muito certa)

Ana, dona do café disse...

Gaba-te de seres das poucas pessoas que me conseguem deixar sem palavras, Jorge (e sabes bem disso).
PP, andas-me realmente a espiar? Desde que cries esses teus textos lindos, não me importo...
Um beijo.

Del Giorgio disse...

Não é minha intenção deixar-te sem palavras. Muito pelo contrário!! :) ***

"Say something, say something, anything.
You're silence is death to me..."