Era uma vez, lá na Judeia, um rei,
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.
E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia, O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter caração, Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da nação.
Mas, por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu Daquelas mãosde sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.
(Miguel Torga)

2 comentários:

Del Giorgio disse...

Não era esse poema q o Victor de Sousa recitava enquanto o Herman (q fazia de emigrante) tinha ido cagar a uma árvore? Era esse era!! Lembro-me pela parte do "Uma cara de burro sem cabresto".

Ana, dona do café disse...

LOLLLLLLLLL *